O prefeito e as pressões políticas que vêm (ou teriam vindo) "de cima"

Quando você começa a processar as autoridades, a maioria delas, que foi educada em uma época em que o promotor de justiça não tinha propriamente a garantia da imovibilidade, cogitará de falar com o governador sobre a sua situação. Na verdade, se for um prefeito (mal-informado), ele tentará agendar uma reunião com um deputado estadual ou no máximo com um subsecretário de estado para tratar da sua tão desejada remoção. É óbvio que se a sua atuação é essencialmente a propositura regular e sensata de ações civis públicas, a expedição de ofícios requisitórios e de recomendações, esse pleito não chegará aos ouvidos do procurador-geral, pois a garantia da inamovibilidade e a independência funcional já criaram nos chefes da instituição uma resistência em tratar do tema com agentes políticos. De todo modo, a remoção compulsória do promotor de justiça (que é possível hoje apenas por voto de dois terços do Conselho Superior, por interesse público – cf. art. 15, VIII, da Lei Federal nº 8.625/93) ainda povoa o imaginário dos chefes políticos locais – embora não esteja tecnicamente nas mãos do procurador-geral. Haverá muito burburinho e muito falatório, mas você, nesse aspecto, pode ficar tranquilo, pois sua lotação – pelo menos ela – não está em perigo.
Você provavelmente deixará aquela comarca assim que encontrar uma localidade mais atraente e conseguir a tão-esperada remoção. Esteja certo: tão logo você se mude da cidade, correrá como um rastilho de pólvora a notícia dada pelo prefeito municipal a seus assessores, em tom de orgulho satisfeito: Eu disse a vocês, o nosso deputado não costuma falhar. Eu sabia que o governador iria entender a nossa situação…
Nesses casos, haverá pessoas que acreditarão, como dois e dois são quatro, que você finalmente perdeu a batalha para o prefeito. Na maior parte das vezes, esse trabalho sobre o imaginário popular local não está a seu alcance, pois você geralmente está ali de passagem. A criação de mitos e de lendas é tarefa que está nas mãos da ancestralidade de um povo. Na visão deles, você é um detalhe da paisagem, que veio e logo irá embora. Tenha paciência.
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Confronto com as autoridades locais: você está preparado?

A propositura de ações contra autoridades locais — que além de você são, em geral, o prefeito, o padre, o juiz, o delegado de polícia e o comandante da polícia militar –: eis outra questão que você terá de enfrentar no começo da carreira em uma pequena comarca.
Frequentemente há conflitos entre o ponto-de-vista do Ministério Público e as pretensões do prefeito municipal – e isso invariavelmente é fonte de diversas ações civis públicas.

Mais raros são os conflitos com a polícia; mas aqui também pode ser necessário o ajuizamento de ações penais e civis. Ações penais contra policiais militares e civis, por abuso de autoridade, são muito comuns.

Essas situações podem ser muito delicadas. Caso você não se sinta à vontade para enfrentá-las sozinho, poderá pedir o auxílio de colegas mais próximos, que em casos excepcionais poderão assinar as ações em conjunto ou até mesmo fazer as audiências do caso, para evitar a personalização da atuação ministerial.
Em pequenos municípios, o seu círculo de amizades e a sua privacidade podem ser prejudicados quando você começa a ajuizar ações com pedido condenatório contra as autoridades locais. Entretanto, essa é a função do Ministério Público. Se você não está preparado para enfrentar essas difíceis situações, ainda é tempo de direcionar suas pretensões para outra carreira jurídica mais tranquila.
Eu já estive no meio de fogo cruzado entre a Polícia Civil e a Polícia Militar. O delegado não conversava com o tenente e o tenente não conversava com o delegado. Ambos acumulavam desavenças mútuas. Ora, você precisará tanto de um quanto de outro no dia-a-dia de sua atuação criminal. Geralmente vale a pena não romper os laços institucionais. Em casos extremos, em que o abuso de poder e a conduta eventualmente criminosa do policial sejam públicos e notórios, é prudente obter a ajuda da procuradoria-geral de justiça e das corregedorias de polícia e reduzir as relações a um mínimo possível.

Você será testado em todas as áreas do conhecimento jurídico

No começo da carreira, você enfrentará problemas que exigirão o domínio de todas as áreas do conhecimento jurídico. Em muitos deles, as teorias estarão inevitavelmente emaranhadas nos fatos; e terá dificuldade de captar as nuances mais sutis, os detalhes técnicos, as soluções tecnológicas viáveis. Você certamente terá que levar para sua comarca uma série de códigos de legislação e manuais de atuação e livros de doutrina. É natural que você queira reservar uma mala, de médio porte, para levar os livros! Isso é imprescindível, mas não será o suficiente. Se você passou no concurso para promotor de justiça muito jovem, sua experiência na primeira comarca será uma época de intenso aprendizado e assimilação de novas situações. Tudo isso ocorre enquanto você tem de continuar decidindo, participando de audiências, de atendimento ao público e de inspeções. Esse aprendizado ocorrerá no duro solo da realidade. Os livros indicarão, algumas vezes, um caminho seguro. Outras vezes você sentirá falta de um profissional qualificado, de um perito em uma das diversas áreas que tangenciam nossa atuação jurídica: meio ambiente, finanças, contabilidade, sociologia, psicologia, serviço social… A lista não acaba mais!

Geralmente faltam, nos mais variados cantos do país, profissionais com quem o promotor de justiça possa tirar dúvidas e se aconselhar tecnicamente. A equipe de peritos do Ministério Público, ainda em número insuficiente, não dá conta de toda a demanda. Você acabará tendo que entender um pouco de tudo, se não quiser, especialmente na tutela coletiva, ter o trabalho completamente paralisado.
Há a esperança de que, em um breve futuro, o corpo de peritos da instituição cresça e ganhe forma, e aí então as decisões do membro do Ministério Público — ou aquela parte de sua decisão em que ele estará inevitavelmente solitário — limitem-se, tanto quanto isso for possível, ao aspecto propriamente técnico-jurídico dos eventos. Enquanto isso não acontece, você terá de entender um pouco sobre engenharia ambiental, engenharia sanitária, psicologia infantil, culturas indígenas e quilombolas, economia, sociologia, comunicação social, estatística, engenharia civil, arquitetura…