Sobre a vontade de mudar o mundo (2)

Os jovens geralmente gostam — e talvez efetivamente precisem — de sentir que têm poder para mudar o mundo. Um sábio oriental (não tenho certeza se foi Confúcio) registrou sua concepção do político ideal: ele deve se esforçar, em primeiro lugar, para mudar a si próprio e ordenar a sua própria vida; depois, deve preocupar-se com a sua família; obtido sucesso nessa tarefa, é hora de se preocupar com a sua rua; em seguida com seu bairro, com sua cidade, com seu país. Para frustração dos mais afoitos, o sábio asseverou: geralmente o indivíduo morre antes de conseguir implementar as primeiras tarefas.
Quando você vê, empenhadas em mudar o mundo, pessoas que sequer têm as rédeas de suas próprias vidas, percebe que poucas ideias são tão perfeitamente idiotas e tão nocivas quanto essa. Jean-Jacques Rousseau, por exemplo, é tido como o grande inspirador da pedagogia moderna (em especial por sua obra Emílio ou Da Educação, na qual pontifica regras para a educação das crianças). Apesar disso, não educou seus próprios filhos, mas preferiu confiá-los a um orfanato. Ora, se suas teorias eram tão lúcidas por que não quis aplicá-las na sua própria casa? É paralaxe cognitiva (na concepção do Prof. Olavo de Carvalho) no grau sete. Emílio possivelmente contém interessantes intuições sobre o fenômeno da educação das crianças. Mas, ao fim e ao cabo, parece que nem o próprio Rousseau as levava muito a sério. Por que devemos ser nós a levá-las?
Quem não foi comunista aos quinze anos não tinha coração; quem continua tal aos vinte não tem discernimento — é a frase atribuída a Winston Churchill. Espera-se que entre uma idade e outra você comece a fazer as contas e perceba que o ideal igualitário radical exige, como sempre exigiu, uma concentração de poder gigantesca, a ser gerenciada justamente pelo partido que então dominará o Estado. A pretensa busca da igualdade de todos e entre todos gera uma desigualdade (essa sim, muito perigosa) entre Estado e cidadãos, que funciona inevitavelmente em prejuízo dos direitos fundamentais do indivíduo. Isso não é mera teoria: veja os países que adotaram — e ainda adotam — o regime comunista e comprove: não há democracia sem livre iniciativa, assim como não há quadrado redondo.
Em um país com tantas desigualdades injustas como o nosso é natural que surjam aqui e ali vozes em defesa da mudança radical dos rumos. É verdade que nós sempre podemos fazer algo para melhorar a situação atual – em especial se elas nos são próximas e estão sob nossa responsabilidade. Como promotor de justiça, você certamente poderá fazer muito. Mas não poderá decidir no lugar das pessoas e, principalmente, não poderá invadir a esfera de liberdade que a Constituição da República garante a cada um. Liberdade do outro e responsabilidade por seus próprios atos: eis aí dois “problemas” com as quais os jovens que querem mudar o mundo têm enorme dificuldade de lidar.
Nem toda desigualdade é injusta e nem toda injustiça pode ser combatida simplesmente por meio de decretos ou de ações judiciais – em especial se a injustiça, perpetuada no tempo, é fruto de causas complexas. Nesses casos, a tentação revolucionária é muito grande. Espero de coração que você saiba resistir a ela. Em casos mais complexos, o máximo que você poderá fazer é minimizar o sofrimento das pessoas e cultivar, se for da vontade de Deus, as sementes de uma mudança a que provavelmente seus filhos começarão a assistir. O promotor de justiça também deve saber carregar a sua cruz.
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Longe de casa, há mais de uma semana, há milhas e milhas distante…

Se você começar a carreira jovem, solteiro, é preciso ter bom senso no momento de assumir suas funções. Reconheço que bom senso, aqui, pode dizer pouco. René Descartes, no começo de seu Discurso do Método, lembra que esse é o atributo pessoal mais bem distribuído: ninguém deseja ter mais que tem e ninguém julga possuí-lo além do necessário. Seja como for, é bom dar ouvidos à voz da consciência, quando ela lhe surgir, lá do fundo, sugerindo: Tenha bom senso, rapaz…
É comum que o candidato ao concurso fique anos estudando com muita dedicação, muitas vezes em claro prejuízo para sua vida social — e até para sua vida afetiva. Já vi mais de uma vez promotores de justiça que, quando assumem a primeira comarca, agem como cães famintos que ficaram presos por muito tempo. Se o novo local de trabalho é, então, muito distante de sua terra natal e de sua realidade, é possível que ele se sinta autorizado a revelar sua face até então oculta a um número muito grande de moças da localidade — número que ele raras vezes é capaz de administrar. Em casos mais sérios, a procuradoria-geral acaba tendo que atuar e, se se tratar de promotor substituto, sugerir que ele não se titularize naquela comarca.
Com as promotoras o problema é um pouco diferente. Em cidades muito pequenas, as promotoras de justiça solteiras ainda encontram alguma dificuldade de relacionamento (creio que haja exceções). No mínimo, o conjunto universo dos pretendentes viáveis é muito reduzido.
Além disso, as funções de fiscalização e de acusação que as meninas assumem acabam imprimindo na população — por mais que algumas delas se esforcem para transparecer o contrário — a imagem de uma profissional brava, irascível, zangada. A função de fazer a guerra é essencialmente masculina. A mulher, receptiva por natureza, dona do ventre onde a vida é gerada e sede da sensibilidade, atrapalha-se — algumas vezes se desfigura — na função acusatória. Para a maioria dos homens de nossa cultura isso não é fácil de assimilar. No imaginário dos matutos do interior de Minas Gerais, onde meu avô foi criado, dois galos não ficam no mesmo terreiro sem brigar. É um desafio e tanto!

With a little help from my friends

Nos momentos de aperto — ou nos de descontração — os colegas, em especial os colegas de concurso, podem ser muito úteis. Não hesite em manter contato com eles. Geralmente há um espírito de solidariedade muito grande entre os promotores e entre os procuradores. Se você não consegue resolver determinado processo, se está em dúvida sobre que atitude tomar, pedir conselhos pode ser a melhor saída. Uma ideia simples e eficiente — que não me ocorria — sugerida por um colega que não estava com a cabeça enterrada no assunto, muitas vezes já pôs fim às minhas noites de insônia.