Os efeitos de seu trabalho serão, de qualquer modo, amortecidos

No começo da minha carreira eu ainda acreditava que as atribuições do promotor de justiça lhe davam um potencial para fazer mudanças muito grandiosas na sociedade. Aos poucos fui percebendo que quer sejam as suas ações boas, quer sejam más, a própria sociedade — e o Estado — têm seus mecanismos de assimilação; o efeito de seu trabalho passa invariavalmente por uma filtragem. Ainda bem! Se você atuou brilhantemente e espera que seu trabalho gere um efeito positivo em grau dez, se contentará se, no final das contas (após recursos e execuções malfeitas) o efeito for medido, pelos mais otimistas, em cinco; por outro lado, se a sua ação foi desastrosa a ponto de gerar um prejuízo de grau nove à sociedade, a reforma de uma decisão judicial ou os mecanismos de cicatrização que a sociedade possui minimizarão os efeitos para, digamos, o grau quatro. Essa é a realidade: suas ações entrarão em um contexto, serão ruminadas e assimiladas pelos destinatários e pela sociedade em geral. Ainda bem!
Desejar que suas ideias e ações mudem bruscamente condutas que a sociedade vem adotando há séculos e que mudem as condições materiais mesmas da vida social é o melhor modo de viver uma ilusão demoníaca. As coisas certamente podem ser melhores do que são hoje, mas devagar com o andor que o santo é de barro! É de bom gosto adotar uma posição que esteja entre a concepção revolucionária — que tem origem em uma revolta contra a realidade — e uma também indesejável inércia contemplativa — já que o promotor de justiça é, efetivamente, um homem de ação.
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O promotor de justiça diante (da má-interpretação) das promessas estatais

Nossa ordem constitucional busca manter-se estável. Nossa Constituição da República tem cláusulas pétreas, que não podem ser modificadas. Apesar disso, os ocupantes de mandatos eletivos e demais burocratas estão sempre ávidos por aumentar seus poderes em prejuízo das liberdades individuais fundamentais. A desculpa é sempre e invariavelmente o bem comum. O Estado nos promete lazer, habitação e, em breve, terá o dever de nos proporcionar o acesso à felicidade! Ser feliz se tornará um direito humano fundamental. O trânsito em julgado de uma sentença judicial que determine, sob pena de prisão, “felicidade já” é o sonho de muitos… Para os estóicos, havia um modo mais interessante, embora mais trabalhoso, de alcançá-la. Nesse ponto, parece que alguma coisa se perdeu ao longo do caminho que nos trouxe até aqui.
O promotor de justiça certamente pode e deve fazer muito pela sociedade. Mas se ele tiver os pés na realidade verá que a sua função de promover a justiça é muito modesta e limitada; saberá que ele é um servidor público e que quem move o país e promove a riqueza das pessoas é, para sermos bem sinceros, a iniciativa privada e os trabalhadores que nela investem sua força de trabalho. A sociedade norte-americana, nesse ponto, sabe bem o valor das iniciativas individuais e por isso tratam seus funcionários públicos como realmente são: cooperadores que, se não atrapalharem já estarão ajudando muito.

O prefeito e as pressões políticas que vêm (ou teriam vindo) "de cima"

Quando você começa a processar as autoridades, a maioria delas, que foi educada em uma época em que o promotor de justiça não tinha propriamente a garantia da imovibilidade, cogitará de falar com o governador sobre a sua situação. Na verdade, se for um prefeito (mal-informado), ele tentará agendar uma reunião com um deputado estadual ou no máximo com um subsecretário de estado para tratar da sua tão desejada remoção. É óbvio que se a sua atuação é essencialmente a propositura regular e sensata de ações civis públicas, a expedição de ofícios requisitórios e de recomendações, esse pleito não chegará aos ouvidos do procurador-geral, pois a garantia da inamovibilidade e a independência funcional já criaram nos chefes da instituição uma resistência em tratar do tema com agentes políticos. De todo modo, a remoção compulsória do promotor de justiça (que é possível hoje apenas por voto de dois terços do Conselho Superior, por interesse público – cf. art. 15, VIII, da Lei Federal nº 8.625/93) ainda povoa o imaginário dos chefes políticos locais – embora não esteja tecnicamente nas mãos do procurador-geral. Haverá muito burburinho e muito falatório, mas você, nesse aspecto, pode ficar tranquilo, pois sua lotação – pelo menos ela – não está em perigo.
Você provavelmente deixará aquela comarca assim que encontrar uma localidade mais atraente e conseguir a tão-esperada remoção. Esteja certo: tão logo você se mude da cidade, correrá como um rastilho de pólvora a notícia dada pelo prefeito municipal a seus assessores, em tom de orgulho satisfeito: Eu disse a vocês, o nosso deputado não costuma falhar. Eu sabia que o governador iria entender a nossa situação…
Nesses casos, haverá pessoas que acreditarão, como dois e dois são quatro, que você finalmente perdeu a batalha para o prefeito. Na maior parte das vezes, esse trabalho sobre o imaginário popular local não está a seu alcance, pois você geralmente está ali de passagem. A criação de mitos e de lendas é tarefa que está nas mãos da ancestralidade de um povo. Na visão deles, você é um detalhe da paisagem, que veio e logo irá embora. Tenha paciência.

Confronto com as autoridades locais: você está preparado?

A propositura de ações contra autoridades locais — que além de você são, em geral, o prefeito, o padre, o juiz, o delegado de polícia e o comandante da polícia militar –: eis outra questão que você terá de enfrentar no começo da carreira em uma pequena comarca.
Frequentemente há conflitos entre o ponto-de-vista do Ministério Público e as pretensões do prefeito municipal – e isso invariavelmente é fonte de diversas ações civis públicas.

Mais raros são os conflitos com a polícia; mas aqui também pode ser necessário o ajuizamento de ações penais e civis. Ações penais contra policiais militares e civis, por abuso de autoridade, são muito comuns.

Essas situações podem ser muito delicadas. Caso você não se sinta à vontade para enfrentá-las sozinho, poderá pedir o auxílio de colegas mais próximos, que em casos excepcionais poderão assinar as ações em conjunto ou até mesmo fazer as audiências do caso, para evitar a personalização da atuação ministerial.
Em pequenos municípios, o seu círculo de amizades e a sua privacidade podem ser prejudicados quando você começa a ajuizar ações com pedido condenatório contra as autoridades locais. Entretanto, essa é a função do Ministério Público. Se você não está preparado para enfrentar essas difíceis situações, ainda é tempo de direcionar suas pretensões para outra carreira jurídica mais tranquila.
Eu já estive no meio de fogo cruzado entre a Polícia Civil e a Polícia Militar. O delegado não conversava com o tenente e o tenente não conversava com o delegado. Ambos acumulavam desavenças mútuas. Ora, você precisará tanto de um quanto de outro no dia-a-dia de sua atuação criminal. Geralmente vale a pena não romper os laços institucionais. Em casos extremos, em que o abuso de poder e a conduta eventualmente criminosa do policial sejam públicos e notórios, é prudente obter a ajuda da procuradoria-geral de justiça e das corregedorias de polícia e reduzir as relações a um mínimo possível.