Pessoas e pessoas

Para ser um bom juiz não é suficiente dominar todo o ordenamento jurídico. Não basta conhecer todas as tendências jurisprudenciais do Tribunal ou o temperamento dos desembargadores. Para ser um bom juiz é preciso, além disso tudo, saber gerenciar uma vara judicial, resolver conflitos entre servidores e lidar com as particularidades de cada membro da equipe de trabalho. Em uma palavra: é preciso gostar de gente e saber ‘como as pessoas funcionam’.

Acostumado a trabalhar com diversos juízes, vejo com muita clareza: enquanto alguns deles não têm a menor habilidade, por exemplo, para enfrentar com coragem um acervo processual complicado, acumulado por anos de trabalho mal-conduzido; outros, por sua vez, tão logo assumem seu trabalho na vara e já vão logo ‘pegando o touro pelo chifre’. Com esses últimos não há tempo ruim: os processos antigos são desengavetados, as audiências são agendadas e as sentenças começam a ser redigidas.

As pessoas são muito diferentes. E têm expectativas diferentes em relação a seu próprio trabalho e ao mundo. Sou hoje um pouco cético em relação a mudanças radicais de atitude. Depois de uma certa idade, as pessoas geralmente não mudam muito. Porque já fizeram uma série de compromissos com seus erros e com seus maus hábitos. Há uma fase na vida, talvez no final da adolescência, talvez no início da vida adulta, em que a maioria das pessoas já tem estabelecidas as suas crenças em relação ao mundo: por não ter energia suficiente para suportar a indefinição, ou por pura e simples preguiça de levar a pesquisa adiante, sua visão de mundo estão se cristaliza. Daí para a frente suas atitudes, seu ‘jeitão’ de tratar as pessoas e de enfrentar o mundo são para si a tradução perfeita, aplicada ao seu caso particular, da ‘única coisa razoável a fazer’.

A cristalização precoce de uma cosmovisão incompleta ou defeituosa é terreno propício para a proliferação de muitos mal-entendidos e causa de muita infelicidade. A única saída: abrir a alma a novas ideias, de preferência fundamentadas em tradições bem-sucedidas. Isso costuma acontecer através da dor. A alguns, com um pouco de sorte, vem através do amor.

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O primeiro retorno

Depois de uma pausa de mil compassos, eis-me aqui novamente. Fiquei bem mais de um ano sem escrever estas cartas. Há nove meses anunciei que o blog sofreria um recesso. Naquela ocasião, eu não esperava voltar a escrever tão cedo. Porém, voltei. É fato.

Tenho-me dedicado nos últimos meses a trabalhar muito, a observar a nossa vida institucional e as nossas discussões internas e, principalmente, a conversar com alguns colegas procuradores da República sobre os mais variados assuntos — sobre nossa instituição, sobre a atividade jurídica nacional, sobre cultura, educação, realização profissional e frustrações. Os resultados parciais dessa última atividade podem ser vistos no site Um Dedo de Prosa.

Lá as conversas são necessariamente uma via de mão dupla. Diferentemente, aqui nestas Cartas dou vazão à necessidade registrar um testemunho individual: o que percebo, o que sinto e o que penso no exercício de ser e de fazer o Ministério Público nosso de cada dia.